Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971)


Por Rafael Lopes

“Well, well, well, Druges… Qual vai ser o programa hoje? Que tal um pouco da velha Ultraviolência?


Sádico, tenso, vibrante, espetacular, ousado, perfeito! Todos os adjetivos possíveis são bem empregados em algo tão perfeito como Laranja Mecânica, filme baseado no ótimo livro de Anthony Burgess, filmado por ninguém menos que ele, Stanley Kubrick – O Cara!
Alex DeLarge é um péssimo exemplo. O moleque sai a noite com os amigos pra praticar delitos, se diverte vendo os outros serem espancados, humilhados. Com uma mentalidade forte, o líder do grupo de arruaceiros é também o mais sádico. Gosta de pegar mulher quando quer, ouvir Beethoven, bater em mendigo, estuprar e praticar roubos. Só que ele não controla sua ira, nem mesmo com seus amigos, que por causa de uma brincadeira, acabam traindo o pobre Alex. Preso por assassinato, ele decide ser cobaia do “Método Ludovico” , que consiste em fazer o delinquente deixar de ser delinquente.
O problema é que fora da prisão, as coisas parecem conspirar contra ele. Todos que ele de alguma forma fez sofrer, farão o mesmo com ele. Destino ingrato. Alex se torna vítima de seus próprios atos e acaba pagando por isso.
São pouco mais de 2 horas de um filme denso, cheio de pompa e sentimento, que arrasa em tudo, desde o mais fútil detalhe, até a estilizada violência que o filme traz.
Kubrick não deixa nada passar. Cada ponto do filme é uma crítica ao mundo moderno, às seus defeitos e consequências  quase um presságio do que temos hoje. Juventude rebelde sem causa, violência em todos os pontos, evolução nas construções e tudo mais, mas um povo ainda primitivo, que não aprendeu a andar com as próprias pernas.
Os diálogos carregados de sutilezas ferrenhas a isso é o que há de mais delicioso no filme. Até as gírias usadas por Alex e seus amigos, soam com esse tom. As cores vibrantes (marca do Kubrick), com cenários extravagantes, passam a sensação de futuro próximo, o que torna o filme ainda mais autentico e verdadeiro.
A forma como Kubrick conduz seu filme é primoroso e fabuloso. Abrindo o filme com muita violência, ele não economiza nas doses pancadaria. E isso ele faz de uma forma a criarmos certo desprezo pelo personagem principal. Só que depois do tratamento, Alex acada de alguma forma ganhando a simpatia do publico, passa de vilão a mocinho quase que instantaneamente. Essa mudança radical, da água pro vinho, mostra que ele não é o único sádico/frio/violento que existe. Todos são, e não há “Método Ludovico” no mundo capaz de mudar isso.
Enquanto tudo é desenvolvido com calma e maestria, mergulhamos cada vez mais naquele mundo imaginário que não está tão longe e tampouco diferente do nosso. Todas as coisas mostradas por Kubick no filme são planejadas com muito cuidado, são colocadas em cada momento do filme com muita paciência, e o resultado é uma explosão de imagens vibrantes e certeiras, que só com outras “assistidas” é que são sacadas.
Cada movimento de câmera, cada quadro é trabalhado para passar algum sentimento, como por exemplo, perversidade na cena em que Alex acidentalmente mata a “louca dos gatos”. Outro exemplo é quando sentimos a inocência dele quando está cantando “I’m Singingi in The Rain” na banheira tomando banho.
Outra sacada genial, é que o filme não expõe a violência de maneira direta, e sim de um modo mais subjetivo, sem mostrar sangue, sem mostrar membros quebrados, sem apelar pra essas coisas tão comuns hoje em dia. Tudo é mostrado com o mínimo de violência, e por isso acaba sendo tão chocante. Voltando o exemplo do assassinato, em que Kubrick em momento nenhum mostra Alex enfiando aquele pênis no rosto dela, mas as imagens que acontecem ali são o bastante pra vermos isso, por isso sai tão chocante. E se notarem nem há sangue na cena.
Outra coisa bacana é a união entre belo e feio, algo bem constante no filme.
como na cena em que Alex e seus amigos vão brigar com a gangue do Billy Boy, ela começa com uma imagem bela e caminha para algo nem tão belo assim. Esse efeito é mais sentido com a trilha, cheia de Beethoven como pano de fundo da violência.
Os figurinos são outro arraso, extravagantes, exagerados, coloridos. A trilha é perfeita e atenua cada momento de maneira formidável.
Agora quanto às atuações, tudo e todos estão PERFEITOS. Malcolm McDowell está no seu melhor e memorável personagem. Com olhos azuis e sorrizo jovial, o cara caiu como luva no protagonista. Não consigo imaginar outro fazendo o filme com tanto empenho e qualidade como ele. Acho que o momento mais genial é a parte em que ele vai estuprar a esposa do escritor cantando “I’m Singing in the Rain”, cena atológicaça, em que ao mesmo tempo que passa repúdio, há um certo “ar de palhaço”, que acho incrível.
O resto do elenco é ofuscado pelo Malcolm. Só que todos apresentam aquele ar asqueroso que é deliciosamente criticado no filme.
Acho que a única coisa que achei “errado”, foi Kubrick terminar o filme como terminou. O livro tem um final diferente, e que no final das contas, (interpretação minha) é uma grande metáfora sobre a passagem da adolescência para a fase adulta, já que ele começa com 14 anos e termina com 18. O lance da metáfora se dá pelo fato de ele apresentar todas as atitudes de um desordeiro quando jovem, mas quando fica adulto acaba repudiando a violência e se tornando alguém mais careta.
A versão do Kubrick ganha ares mais politizados. Nada contra, é até bom, porque termina com uma conclusão dele. O ruim disso é que na época do lançamento do filme, levaram muito a sério aquilo tudo, e a banalização foi geral. Casos de gangues como as do filme, e agindo como as gangues do filme, arrasaram a Inglaterra, obrigando Kubrick a tirar o filme de circulação, e que acabou sendo proibido.
Por conta disso, no circuito pirata, muitos jovens assistiram e entenderam as mensagens. Esses caras eram Sam Mendes (de Beleza Americana), Tony Kaye (de A Outra História Americana), John Singleton (o mais jovem diretor indicado ao OSCAR, com Os Donos da Rua), sem contar os outros tantos influenciados pela magia e euforia causada por Alex DeLarge, seus Druges e um dos diretores mais fantásticos de todos os tempos, e um dos trabalhos mais Incríveis da História do cinema.
Nota: 10,00
A Clockwork Orange, 1971
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates.
Anúncios