O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Jean-Pierre Jeunet, 2002)


Por Felipe Piacente.

No começo da década, tivemos um filme tão original e tão belo que lançou (de novo) o cinema francês e o diretor Jean Pierre Junet ao mundo. Um filme que mostra algo que parece ter sido esquecido.

O filme fala sobre Amelie Poulain, uma menina simples que nunca teve boa relação com os pais, e cresceu solitária, então, quando descobre por acaso brinquedos escondidos numa parede oca de sua casa ela resolve procurar o dono, e se ele se emocionar na hora de encontrar os brinquedos ela iria se dedicar a ajudar toda a humanidade(ou pelo menos parte dela).

O filme tem uma sinopse que até parece bobinha, mas não se deixa levar por ela, que é talvez o menos importante do filme. A beleza do filme está nas entrelinhas, na metalinguagem, a beleza das cores, as atuaçoes, a singularida de cada plano, de cada diálogo. Amelie Poulain é um filme que deve ser sentido, antes de entendido.

Jean Pierre Junet vinha do visualmente belo “Delicatessen” e do sucesso do “Alien: A ressureição”, ele, em parceria com o diretor de fotografia Bruno Delbonnel, criou o visual magnífico desse filme.

O filme talvez não seria o mesmo sem essa fotografia, o modo como Junet usa as cores é algo realmente memorável. Percebam como os exteriores da cidade são verdes (como a banca, o metro, as ruas, o parque, etc.) e os interiores (como a loja pornô, o quarto da Amelie, a casa do “homem de vidro”, etc.) são vermelhos. E todos tem um toque suave de azul. Bruno Delbonnel e Junet usam as cores como poucos haviam feito. A fotografia dá o tom do filme e o torna muito mais agradável.

Outra coisa que dá o toque de genialidade do filme são os detalhes sobre os personagens, como a inocência da Amelie – que gosta de por a mão em saco de grãos. A mãe de Amelie que gosta de arrumar a bolsa e não gosta que toquem em sua mão. O pai que evita tocar em Amelie – adora arrancar tiras de papel de parede e odeia que o calção grude no corpo pós sair da piscina. Entre vários outros personagens. Tudo isso são os prazeres simples, coisas que todos nós temos, algo que odiamos e algo bem simples que nos dá um prazer idescritível.

Depois que Amelie consegue devolver os brinquedos ela se sente nova, uma outra mulher. Chega de solidão. Chega da monotonia. Ela quer ajudar a todos, e de uma forma ou de outra vai conseguir. Um exemplo é o “homem de vidro” (o cara que é pintor e tem os ossos de vidro) ele sempre pintava o mesmo quadro, mas nunca capturava a essência de uma das mulheres do quadro, por ela ser diferente, é ai que a metafora entra, a menina do quadro é a propria Amelie. Diferente de tudo e de todos, tão diferente que nem ela própria se entende, por isso ele tem problemas em desenhá-la.

O pai de Amelie que sempre quis viajar, mas nunca teve coragem, vê o desejo florecer quando, sem explicação, seu anão do jardim viaja por todo o mundo. Cortesia de sua filha. Amelie aos poucos vai fazendo nascer um sorriso no rosto de todos. Mas quem cuidará dela?

Outra coisa que achei inteligente do filme foi a cena em que Amelie entra na casa do senhor collignon, onde ela somente muda algumas coisas do lugar e ja causa a maior confusão na mente dele… é exatamente isso que o filme quer mostrar, a simplicidade a muito esquecida. Como o simples gesto de mudar algo do lugar ja causa estranhamento

A direção do Junet tambem tem toques muito pessoais, alias, Jean Pierre Junet é um dos poucos diretores que podem bater no peito e gritar “eu faço cinema autoral“. Todo filme dele você sente ali na película sua digital, você pode até não saber quem dirige, mas somente ver uma cena ja sente que aquilo é Junet. Apartir do uso dos extremos ele cria uma decupagem coerente, onde a troca de um plano geral para um close é de uma cena para outra, ou mesmo a câmera em movimento. Algo que o próprio ja declarou amar.

É dessa maneira, com a fotografia explodindo em cores, a direção dos extremos, as atuaçoes singelas, o roteiro minimalista e original e a direção de arte única que Jean Pierre Junet nos lembra – na era da tecnologia, dos grandes carros, da pressa – de algo que parece a muito ter sido esquecido, a simplicidade

Le Fabuleux destin d’Amélie Poulain, 2002

Direção: Jean-Pierre Jeunet.
Elenco: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Isabelle Nanty.

Anúncios