Cisne Negro (Darren Aronofsky, 2010)


 

Por Rafael Lopes

Foi no excelente O Lutador que o diretor Darren Aronofsky encontrou seu estilo e o lugar certo para canalizar seu talento. Diferente de suas primeiras obras, onde parecia seguir febrilmente a cartilha do bom diretor, foi a partir da história do lutador veterano tentando o auge novamente que ele encontrou a sua identidade como diretor. A forma de trazer o personagem para próximo do espectador, utilizando recursos simples para criar uma atmosfera realista e profunda, ele volta a utilizar essa técnica em Cisne Negro, aliado, claro, ao poder destrutivo de através de suas personagens moldá-las, caracterizá-las e fazê-las se encaixar em seu meio, consegue mais uma vez, fazer um filme brilhante.

A história de Nina (Natalie Portman arrasando) consegue o papel principal nua adaptação de O Lago dos Cisnes, onde luta com todas as forças para dar vida a duas personagens: o cisne branco, puro e belo, e o cisne negro, perigoso e ameaçador. Nina, então, começa uma busca incansável pelo perfeccionismo em suas coreografias, mas essa busca, desenfreada e por vezes destruidora, a torna exatamente como o cisne da história. Sua pureza e submissão a revelam uma cisne branca, criada pela mãe que a privou de conhecer e descobrir a vida, mas logo ela se torna invejosa, obsessiva, bem como o cisne negro, a quem ela literalmente tem muito a ver.

A título de curiosidade, os cisnes negros – animais – são conhecidos exatamente por não ter hábitos migratórios, ou seja, está sempre onde se criou, bem como Nina, que com quase 30 anos, não deixou sua casa; outra característica dos animais é justamente sua super proteção e sua obsessão em cuidar do que é seu. Relacionando à Nina mais uma vez, sua mãe ainda a controla, de maneira realmente grudenta, e ela é capaz de dar tudo de si para continuar a ter o que é seu, no caso do filme, o papel principal na montagem. É aí que começa um espiral de situações que vão moldando e trabalhando muito bem essas características dúbias de sua personagem.

E é quando entra em cena, Lilly (Mila Kunis), que dá pra notar: é o lado negro do cisne segundo a ótica de Nina. Para ela, Lilly é a representação de tudo o que pode lhe prejudicar, como a inveja e a obsessão que ela não enxerga dentro de si. Os conflitos entre as duas são inevitáveis, mas estamos acompanhando tudo sob a visão de Nina, então, até onde tudo aquilo pode ser verdade? As simbologias começam a tomar forma a partir daí. Nina entende a necessidade do erotismo, e se entrega; Nina entende que possui uma rival a sua altura, e luta para ser melhor do que ela. Só que suas alucinações começam a degradá-la.

É durante o espetáculo, depois de perceber que tudo o que vive, que tudo o que faz não é o que a caracteriza, mas sim a dança, sua única forma de viver, de dizer, de sentir, e é o que ela no fim das contas busca um lugar para se sentir viva, livre, e consegue. Durante os minutos finais, o diretor trabalha bem essa formação, onde os níveis de obsessão chegam ao seu extremo, só que o show deve continuar. Ela finalmente entendendo tudo, chorando desesperada, mas logo, se olhando no espelho e entendendo que precisa ir ao ato final, é o ápice do filme. É ali que ela encontra seu lugar, é ali que ela se descobre como pessoa e essa é a única forma de ela representar o cisne. Ela se vê como o cisne finalmente.

É um suspense por muitos ângulos arrebatador, uma vez que trabalha com uma agonia e um estado de lirismo tão belo, que a cada minuto que passa, o contraste entre a degradante história e a romântica descoberta de si dão ao filme todo crédito para ser chamado de um dos melhores do ano. Aronofsky consegue com destreza e segurança construir uma trama que assim como sua personagem, segue duas vertentes que quando se chocam, criam uma série de situações que vão do sufocante ao tenebroso e resultam numa libertação. Nota-se muito de influencias de David Lynch – que conseguia transformar a realidade em algo maleável sem atestar loucura em suas personagens – principalmente na hora de tornar a fantasia em realidade e vice-versa.

A direção fica aliada à visão de Nina sobre o seu meio e junto com isso, a desenvolve e a faz existir em todos os lados e em tudo o que faz. É dessa forma que Aronofsky consegue firmar um etilo próprio e muito pertinente, ainda mais em se tratando da história de alguém passando por essa análise. A riqueza que consegue extrair de suas personagens, e dessa vez não me refiro apenas a Nina, mas a todos os personagens, é incrível. Cada um entrega ao público material necessário para o entendimento das situações propostas e cada um oferece aprofundamento para sabermos do que são capazes.

Com isso, consegue de seus atores interpretações incríveis, com destaque para Natalie Portman, claro. O filme é dela, e ela aproveita bem, dando uma mostra de talento num trabalho que exigiu muito dela. Bem perceptível seu preparo físico para encarar o balé – e ela convence muito bem – e bem perceptível como está muito bem encaixada a sua personagem.

O mesmo se diz de Mila Kunis, que faz com que cada aparição sua seja memorável, destacando a cena onde as duas acabam fazendo sexo. Cena essa, poderosa e que guarda toda a essência do filme: a auto descoberta.

Nota: 10,0

Black Swan


EUA (2010)
DireçãoDarren Aronofsky.
AtoresNatalie Portman, Mila Kunis, Winona Ryder, Vincent Cassel.
Duração104 minutos.

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