Os Mercenários (Sylvester Stallone, 2010)


 

Por Rafael Lopes

Num dos momentos mais antológicos de Os Mercenários, dividem a cena Sylvester Stallone, Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger, onde o que impera é o tom de deboche. Um tirando graça do outro, exaltando suas características e seus personagens lendários, como quando Arnold diz a Sly que ele gosta de brincar na selva, uma alusão a Rambo, ou quando Sly diz que antes eles lutavam no mesmo time, lembrando que dominaram o cinema de ação nos anos 80, e que agora, Arnold ta com aquela pinta porque quer ser presidente.

A cena descrita acima é uma síntese da delícia que é assistir a Os Mercenários, que de certa forma, já nasceu brilhando. Ousado em juntar num mesmo filme o maior número de anabolizados com armas maiores que uma pessoa destruindo meio mundo e pondo aí um pouco de humanismo (não aquele de paz e amor incondicional, mas de seres humanos mesmo), temos aqui um filme saudosista e muito honesto, que prima acima de tudo pela diversão.

E só alguém como Stallone para comandar. Ele entende bem da coisa, pois já foi um boxeador, um tanque de guerra (que reviveu em 2008 sem a mesma eficiência desse aqui), um policial durão, um justiceiro entre outros machões, e em Os Mercenários é um homem de guerra que quando pago, executa com sucesso suas tarefas. Na sua equipe, reuniu nomes da cultura masculina e do cinema de ação. O lutador de luta livre Randy Couture e sua orelha de brócolis, Jason Stathan, Jet Li, Terry Crews e Dolph Lundgreen.

Na primeira cena do filme, já aparecem em ação, e o primeiro momento antológico do filme: o tiro de alerta (o cinema explodiu em risadas) . O grupo de mercenários mostra que quando recebe um trabalho, não importa onde nem o que é, eles arrasam. De volta a casa, recebem de Mickey Rourke um trabalho no inferno: ir até a latina ilha de Vilena e matar o ditador que oprime o povo, contando com a ajuda de um americano desgraçado, Eric Roberts, e seu armário de estimação, Steve Austin. E por falar em armário, mais da metade do elenco se comporta como tal, tanto no tamanho como na atuação. Um deleite aos fãs dos anos 80.

O reconhecimento da ilha é interessante. Chegam como ornitólogos, defensores do meio ambiente, mas seu avião possui um corvo sobre um planeta. Super amigáveis. Sly e Stathan conhecem o contato, Gisele Itié, que pra variar é ideologista e filha do ditador. Ela os ajuda a conhecer o lugar, mas acaba pagando o preço de ir contra as ordens dos mandantes da ilha, os inescrupulosos vilões. Uma fuga alucinante, a dupla matando 41 soldados e detonando o cais, esses vilões não sabem com quem estão se metendo. Mas o contato não quis fugir, preferiu ficar em sua terra natal e defender seu povo. Acaba sendo capturada e torturada.

Em casa novamente, outro momento incrível do filme. Esse sim, improvável para um filme desse porte. Mickey Rourke e toda a sua forte presença de cena faz um dos monólogos mais maravilhosos e sinceros que já vi. Um homem que ganha a vida tirando vidas se arrepende de não ter salvado uma.

Isso causa no Sly uma fúria que o faz voltar a Ilha para derrubar o poder e salvar a moça. Os mercenários juntos, armados até os dentes e a promessa de não deixar nada em pé enquanto a única linguagem que conhecem, a da guerra, é gritada com muito tiro e pancadaria.

Enredo chulo, muitos diálogos descartáveis, porém, uma surpresa que vai além do que esperavam. Ameaçado de boicote por causa das piadas que Stallone fez sobre o Brasil, onde rodou algumas cenas do filme, e com muita gente torcendo o nariz para mais um filme de ação, Os Mercenários distorce muito disso em seus 104 minutos, tornando-se um clássico desse estilo de ação que tanto se perdeu com filmes cada vez mais entupidos de efeitos especiais.

Stallone quer com seu novo longa, resgatar o espírito dos verdadeiros filmes de ação, aqueles dos anos 80, com sua aparente pureza, ingenuidade e muito quebra pau. O roteiro lembra muito um Comando Para Matar estrelado pelo Bradockcom ares de Rambo – por causa da humanização das personagens. Há piadas e frases de efeito muito bem encaixadas e conduzidas por um mestre nessa arte. Ninguém é chamado de cocô como em Stallone Cobra, mas quando Dolph Lundgree pisa na cabeça de um cara e amassa com gosto, depois o chamando de inseto, me senti assistindo à Sessão da Tarde novamente, onde vi metade dos filmes de ação da minha vida. E a condução desse monte de brucutu é carregada de uma deliciosa nostalgia.

Quem adorava esse tipo de filme e sente falta do verdadeiro filme de ação deliciosamente exagerado e sem tantos efeitos digitais como hoje, vai adorar isso aqui. Cenas de ação e perseguição com o máximo de exagero possível, diálogos canastras e atuações idem e muita pancadaria, mas daquelas realistas e pesadas. O duelo entre Sly e Austin é outro momento que já é antológico, terminando com Stallone muito puto dizendo que levou uma surra.

Sinceramente eu sentia falta de um filme assim. Tudo bem que Bourne surgiu aí pra mudar isso, e até conseguiu, colocando inteligência nos filmes de ação, mas ele nunca conseguirá o efeito e o impacto simpático que Charles Bronson tinha quando matava bandido com bazuca ou Clint Eastwood e sua Magnum 44 descendo chumbo nos vilões, ou Chuck Norris defendedno a pátria com suas metralhadoras ou qualquer dessas loucuras que cresci assistindo e adoro ver até hoje.

As tramas são idiotas? Sim, são, mas e daí? Num filme com caras desse porte, de que vale a coerência e a inteligência se o que vale a pena ver é nego matando vilão sem dó e dizendo frases de efeito que nos fazem torcer ainda mais por eles. Não dá pra ver Os Mercenários e cobrar além do que aquele elenco monstruoso e suas piruetas bem executadas com muito suor e músculos podem proporcionar. E acredite, é muito divertido ver um filme assim.

E Stallone, mesmo errando muito em alguns pontos da sua direção, consegue imprimir essa característica de forma muito eficaz. E o melhor de tudo é ver como estão todos bem entrosados e se divertindo muito com aquilo tudo. Isso vale muito num filme onde o único intuito é pura e simplesmente divertir.

A condução das personagens e seu desenvolvimento é bem feito e realista pelo tom humano que ganham. Stathan e a bola de basquete, numa sacada deliciosa sobre o que esses caras realmente são ou qualquer aparição do monstro Mickey Rourke ou até os motivos de Jet Li precisar de dinheiro mostra que esses caras ao matam por que gostam, mas porque de qualquer forma, é o que eles sabem fazer e ganham a vida com isso. O diálogo onde Randy Couture fala sobre sua orelha de brócolis é muito interessante, justamente por ser algo como um brutamontes daquele, que resolve tudo na porrada se sentir rejeitado porque ninguém compreende sua orelha diferente. Dolph também é protagonista de momentos assim, onde mostra que as drogas tomaram conta de sua cabeça e ele se tornou uma má pessoa, mas ele não é, e precisa acreditar em si e fazer algo que faça sua vida valer a pena, não apenas matar por matar.

Essa impressão humanizada quebra qualquer expectativa de falta de cérebro no filme. O problema é que surge apenas como lampejo, mas já é melhor que muito Bad Boys, ou qualquer outro filme de ação que prima para a bizarrice e o retardado do que para a diversão. Vai ver é por isso que os filmes de ação mais antigos sobrevive ao tempo bem mais do que os esquecíveis recentes. E Os Mercenários entra nisso. Acho que esse aqui não envelhece tão rapidamente, justamente por ter os elementos mais que essenciais que um filme de ação como aqueles precisa.

O problema é que Stallone ainda é um diretor bem fraco. Muitos e muitos e muitos furos compõem boa parte das cenas, como por exemplo, na ilha Vilena as pessoas falam espanhol, mas aparece anúncios e propagandas e cartazes no mais correto português; em determinado momento, Gistele Itié manda um “mata-me a mim” assustador e sem contar os infindáveis erros de continuidade e edição. Os efeitos digitais fazem algumas cenas perder o impacto de tão ruins que são; a luz do filme é pavorosa e por aí vai.

Mas ainda assim, as cenas de ação são muito boas. A explosão do cais é uma das melhores do filme todo. De todos os ângulos possíveis ela ficou empolgante e claro, muito divertida. O melhor é ver o esforço da produção em fazer uma coisa bacana que logo esquecemos os erros em nome do puro prazer de torcer e se empolgar com o que se passa. E a trilha sonora tem papel fundamental aí. Trilha sonora maravilhosa. E ainda tem músicas muito boas embalando as cenas. O vôo ao som de Mississipi Queen do Mountain é alucinante. E o desfecho da brincadeira toda, com Thyn Lizzy e a lendária The Boys Are Back in Town é ainda mais inspirador.

 

Ou seja, pagar pra ver esse filme no cinema é um bom investimento. Se você é fã de ação e muita pancadaria, não perca Os Mercenários por nada. O crescimento de cabelo no peito e a voz mais grossa após a exibição do filme estão garantidos.

Um autêntico filme de macho pra macho! Mas mulheres também são muito bem vindas.

Nota: 8,5

The Expandables, EUA (2010)

DireçãoSylvester Stallone.
AtoresSylvester Stallone , Jason Statham , Jet Li , Dolph Lundgren , Eric Roberts, Giselle Itiê, Randy Couture, Steve Austin, Terry Crews, Mickey Rourke, Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger.
Duração104 minutos.

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