Conta Comigo (Rob Reiner, 1986)


Por Rafael Lopes

“… eu nunca mais terei amigos como os que eu tive quando tinha 12 anos.

A citação acima meio que traduz toda uma inquietação. Quando crianças só pensamos em crescer logo e sair da aba de nossos pais, ser livres. Porém, quando adultos, só pensamos em quão bom era ser pequeno, e nos odiamos por quase não tê-la aproveitado 100%.

Comumente, a parte que mais costumamos lembrar está ligado a laços mais fortes. A amizade. Para cada época que passamos, amigos entram e saem o tempo todo, mas nenhum nos marca mais profundamente como os amigos que tivemos quando crianças. A nostalgia ao recordar as brincadeiras, os segredos, tudo isso, que se perde ao passar do tempo.

E é sobre isso que Conta Comigo, filme dirigido por Rob Reiner, fala, a força da amizade, entre crianças.

Baseado num conto de Stephen King, presente no livro Quatro Estações (no livro Quatro Estações, são 4 contos para cada estação, sendo que 3 foram adaptados para o cinema: O AprendizUm Sonho de Liberdade e este), o filme é uma fiel adaptação da história, e consegue com muita competência, passar o verdadeiro significado do livro. O resultado é mais positivo possível.

Como fã do King, prefiro quando ele pega para tratar temas subjetivos em suas histórias. Quando ele deixa o terror de lado e começa a discutir temas mais “humanos”, como amizade, fé e outros sentimentos, ele acerta por criar histórias que não apenas no fazem entender essas mensagens, mas também nos faz criar uma conexão com o que ele diz. Me sentia criança de novo lendo o conto. Era incrível. E com o filme não foi diferente.

Gordie Lachance (Wil Wheaton) possui um grande talento para ser escritor. Mas depois da perda de seu irmão mais velho (interpretado por um John Cusack em início de carreira) passou a ser nada na sua casa. Os pais que nunca lhe davam atenção, passaram a tratar como a um agregado na família. Ele encontra apoio nos três inseparáveis amigos: Chris Chambers (o talentoso e infelizmente falecido River Phoenix), Teddy Duchamp (Corey Feldman) e Vern Tessio (Jerry O’Connell). Eles possuem um daqueles clubes de meninos, onde se encontram para fumar, ler revistas, jogar cartas, passar o tempo.

Mas um dia, o xereta Vern descobre que há um cadáver de um menino que havia desaparecido perto da cidade onde vivem, e chama os amigos para uma excursão até o corpo, para serem tidos como heróis por encontrarem o corpo. Enganando seus pais, partem para uma jornada que não significa apenas encontrar um corpo, mas que vira uma busca por um significado a mais em suas vidas. E no meio de tantas aventuras e desventuras, a amizade entre eles será mais forte do que nunca.

Uma coisa que tanto o livro com o filme acertam em ter, é a grande chance de nos oferecer um painel psicológico das personagens, levando em consideração o ano em que vivem, a cultura da época e cuidadosamente, ligando e sutilmente atualizando esses pontos para as gerações futuras. Isso torna a exibição do filme algo diferente, porque quem assiste, consegue se ver ali, se descobrindo como pessoa imaginando as provações que os 4 amigos passam por toda a história.

O roteiro indicado ao OSCAR é muito preciso com relação a isso, já que cria momentos que causam uma certa reflexão, com diálogos certeiros nessa proposta.

Uma cena para exemplificar bem isso, é quando Vern e Teddy discutem quem venceria uma briga: Super Mouse ou Super Homem, e com o argumento de que o Super Homem é de “verdade”, venceria o Super Mouse, que não passa de um desenho. Do outro lado, Gordie e Chris discutem sobre futuro e como encarar a vida quando amadurecerem.

É a minha passagem preferida do filme, mostrando uma imaginação que temos apenas quando crianças, e uma preocupação que nos é “jogada” e que somos obrigados a fazer escolhas e que tanto nos afligem por boa parte da vida. E há muito disso durante todo o filme. Cada um dos meninos passou por situações que exigiram de suas vidas, escolhas que mudariam para sempre seus rumos, e isso fica melhor exemplificado nos momentos finais, quando sabemos o futuro de cada um.

Sendo esse o grande atrativo do filme, o que sobra é um tempero tão delicioso que quase nem vemos o tempo passar quando assistimos ao filme.

A edição é bem interessante, pois intercala flashs do passado que explicam determinados momentos do filme. A trilha sonora é impecável, as músicas, que desenham toda uma década, ou melhor, toda uma geração, marcada pela inocência e pela rebeldia, em proporções quase iguais. As atuações do quarteto são fortes, principalmente por parte de Wil Wheaton e River Phoenix, que dividem os momentos mais difíceis. Corey Feldman e Jerry O’Connell também fazem bonito, aliviando o filme com tons de humor, mas quando é para ser sério, também arrasam, principalmente Corey.

A direção apela para a simplicidade para contar a história e acerta. Tudo tem um ar de nostalgia tão bem feito que encanta durante todo o tempo. Talvez um dos motivos de o filme ser lembrado com carinho entre os cinéfilos. A verdade é que é um grande filme mesmo.

E o fim guarda o melhor. A música de Bem E. King ”Stand By Me” fecha com chave de ouro, uma das obras mais simpáticas e carismáticas e adoradas do cinema. Um filme marcante para mim, um filme inesquecível para o cinema.

Nota: 10,0

Stand by Me, 1986 (EUA)

DireçãoRob Reiner.
AtoresWil Wheaton , River Phoenix , Corey Feldman ,Jerry O’Connell , Kiefer Sutherland.
Duração87 min

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