Cinema sem Preconceito: Lost and Delirious


Lost and Delirious (Léa Pool, 2001)

Nota: 9,0
Diretor: Léa Pool
Gênero: Drama

Por Cindy Lohana

Abordar a temática homossexual de forma que não seja clichê se tornou um desafio muito grande, principalmente para o cinema.

Fugindo dos esteriótipos e criando um universo totalmente aconchegante aos que apreciam este tipo de obra, Lost and Delirious trata da homossexualidade do jeito que é: o amor de uma pessoa por outra pessoa, não pelo seu sexo. O preconceito, entretanto, sempre intervém de forma negativa em relacionamentos, sejam eles entre homens ou mulheres, e podemos ver isso claramente na película.

A obra conta a estória de Mary B. (Mischa Barton), que é mandada para um colégio interno feminino por seu pai e madrasta. Lá chegando, ela conhece Tori, que virá a ser sua colega de quarto, juntamente com Paulie. No decorrer dos dias, Mary B. percebe que a relação de suas colegas de dormitório não é apenas de amizade, mas ao contrário do aparenta, lida de forma muito madura com a situação, tanto que acaba envolvendo-se na trama intensamente, ajudando muito em alguns momentos às amantes secretas.

Tudo corre muito bem, até que um dia a irmã de Tori (Jessica Paré) a pega na cama, nua, com Paulie (Piper Perabo). A partir de então, Tori, que possui uma família muito rígida e tradicional passa a evitar Paulie, rompendo sua relação afetiva sem maiores explicações. Paulie, extremamente apaixonada por Tori e desapontada com o ocorrido, não deixa de lutar pela afeição de sua amada, que em pouco tempo inicia um namoro com um menino, a fim de afirmar para todos sua heterossexualidade, principalmente para sua irmã.

Mary B. vendo o que a situação causa a Paulie, tenta intervir de uma forma ou outra, mas acaba apenas como uma personagem coadjuvante na história de amor, tragédia e loucura das duas meninas. O enfoque da película, entretanto, se vira também ao abandono do pai de Mary B. por causa de sua madrasta, da dor que causa a morte de sua mãe e como aquele lugar em que está agora, parece ter se tornado sua verdadeira casa. Ela aprende com Paulie que devemos ir além pelo amor daquele(a) que nos tira o sono, não desistir nunca.

Mas, e o diferencial? O que faz de Lost and Delirious tão especial? As duas adolescentes se entregam de tal forma uma à outra, sem receio, dando apenas asas a seus desejos carnais e sentimentos mais profundos, que transformam o espectador em um torcedor para que tudo dê certo. A profundidade da personalidade de Paulie também ajuda muito a prender a atenção daquele que a assiste, e cada traço seu, característica ou ação, são espontâneos, fazendo com que seja ela aquela que qualquer um se apaixonaria.

É então que percebemos que a mudança em seu relacionamento com Tori a afeta tanto, que ela se rende à loucura e a depressão, afastando todos a sua volta. O lirismo com que Paulie trata a vida e o mundo em seu momento de maior desespero e tristeza, porém, é o que dá ao filme toda a beleza e leveza necessária para que este “Assunto de Meninas” seja fora do comum. Há espaço para literatura, drama, amor, sexo, planos, morte e Shakespeare, relatando preconceito como realmente aparenta ser: destrutivo e corrosivo. Tori, abandona seu amor por medo de magoar sua família, Paulie, não desiste da única pessoa que tem, justamente por não ter uma família, enquanto Mary B., aprende a odiar e sentir tudo aquilo que não se permitia.

Resumindo, Lost and Delirious é um dos melhores filmes com temática homossexual feminina já produzidos, pois vai desde a inocência à beira do abismo da tormenta que um amor não correspondido pode causar.

Afinal, Paulie não é uma mulher, que ama outra mulher. Ela é Paulie, que ama Tori.

“Rage more!”

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