Marcados Para Morrer (David Ayer, 2012)


 

End of Watch

Direção: David Ayer
Elenco: Jake Gyllenhaal, Michael Peña, America Ferrera.
Duração: 110 min.
Nota: 7,8

Por Rafael Lopes

David Ayer em sua filmografia parece entender as histórias de policiais que ganham suas vidas patrulhando as ruas. Seu exemplo mais marcante, Dia de Treinamento – Oscar de Melhor Ator para Denzel Washington – já tratava disso. Em sua estreia na cadeira de diretor, para que não houvessem erros, era melhor começar por aí: polícia, rua, imigrantes, carteis, problemas familiares. E de fato Marcados Para Morrer é um apanhado de tudo isso. Dois jovens policiais, cuja ligação vai além do serviço e proteger e servir, é uma irmandade, uma família, que em seu dia a dia tem que lidar com as difíceis situações de trabalhar nas violentas ruas do gueto.

Tanto que já começa com Brian (Jake Gyllenhaal) descrevendo a rotina da dupla, uma perseguição, uma troca de tiros, duas mortes na conta. Como seu superior disse, por mais que tenham matado um bandido, isso ainda é homicídio. Isso faz com que aquela fantasia de se tornar um policial e sair por aí correndo atrás de bandido, trocando tiro, sendo herói, é bonito na ficção, na realidade é tudo diferente. Brian ao lado de seu parceiro Zavala (Michael Peña), um exemplo da torre de babel ali onde se passa o filme, com latinos, negros e americanos brigando por espaço, experimentam a vida de estar sempre sob a pressão de trombar com o perigo quando virar a esquina, só que paralelo a isso, suas vidas ainda são normais, casamentos, gravidez, filhos.

É quando começam a desmantelar um cartel que age nos EUA que tudo muda. Quando viram alvo do crime organizado, começam a se dar conta de que a realidade pode ser ainda mais cruel e o fato de serem chamados de herói um dia, pode não valer de nada quando estiverem sob a mira de uma arma. O flerte com o perigo proposto pelo filme é desenvolvido no fino, de maneira com que tudo seja bem explicado – as vezes mastigado demais – mas sempre mostrando a simbiótica relação do policial de rua que se divide entre o bom marido e o implacável defensor da justiça, algo já muito bem feito com produto nacional, Tropa de Elite.

Ayer busca nas relações íntimas de seus protagonistas desenrolar essa situação captando o máximo que a realidade pode oferecer, experimentando o dia a dia de patrulheiros nas ruas, com aquelas filmagens dos carros, que passam muito naqueles programas de “Amazing Videos de coisas ultracinematográficas que só acontecem nos EUA chupa resto do mundo”, e depois o contraste de suas vidas normais, ao lado da família, em tons diferentes. Quando na rua ele trabalha a química dos protagonistas que claramente passam a sensação de tensão e que precisam confiar suas vidas naquela relação, e depois, na satisfação de cada um com a felicidade que conquistaram longe do trabalho.

Utilizando o recurso já manjado de documentário falso, Ayer perde aí a chance de fazer um filme melhor. Forçando a barra com todo mundo filmando suas ações como se fosse a coisa mais normal do mundo, tipo Atividade Paranormal, bate com a coronha da arma do elenco do filme na inteligência do espectador. Em alguns poucos momentos rende cenas inspiradas, como a abertura, mas em outras é perda de tempo, tornando superficial algo captado em primeira pessoa que poderia muito ser captado por outro olhar, como também acontece e funciona bem.

A indecisão de desenvolver o filme como falso documentário ou não repercute até os momentos finais, perdendo um pouco da grande sacada que seria observar a vida desses guerreiros sob outros ângulos, sob outro foco, bem como Joe Carnahan fez em Narc. Enfim, Marcados Para Morrer é um filme bom, atrapalhado de certa forma pelo amadorismo do diretor, que mostra capacidade de lidar com coisa séria sem perder a mão mas que por escolhas erradas, quase estragou o filme, mas ainda assim um produto que muito bem vale a investida no cinema.

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