Almas Perversas (Fritz Lang, 1945)


 

Scarlet Street

EUA (1945)
DireçãoFritz Lang.
AtoresEdward G. Robinson, Joan Bennet, Dan Duryea.
Duração103 minutos.
Nota: 10,0

Por Rafael Lopes

Em 1930, em sua versão de “La Chienne” do francês Georges de la Fouchardière, o diretor Jean Renoir deu à história, uma roupagem humana, onde pôs as personagens e seus conflitos como produtos de uma mutação do meio onde vivem, um mundo tão horrível capaz de transformar as pessoas por completo. Em sua versão, Fritz Lang, o gênio do expressionismo em sua fase americana, prefere outra abordagem: pegar as pessoas mais patéticas do mundo e ver até onde chegam com suas fraquezas. Não falta ao filme encontros, desencontros, erotismo e violência. É uma parte da sociedade calada e sofrida, mas que de anjinho – como o filme de Renoir de certa forma passa – não tinham nada.

E é nesse meio que o infeliz Chris Cross (Edward G. Robinson carregando a cruz até mesmo no nome do personagem), um humilde caixa de uma empresa vive. O coitado em suas feições força um sorriso que transmite toda a melancolia da sua vida quando pensa estar bem. Conhece a oportunista femme fatale Kitty (Joan Bennet) e seu gigolô violento, Johnny (Dan Duryea), que vê na ingenuidade de alguém a chance de tirar um dinheiro fácil. É aí que o diretor põe sua maior armadilha na vida dessas pessoas: ele faz o pobre Chris acreditar na felicidade, mas não para lhe fazer bem, mas para a sua queda ser maior do que imagina.

Uma rede de traições vão acontecendo, que vão da simples paixonite até o reconhecimento de pinturas que Chris fazia no banheiro de sua casa aos domingos para aliviar a vida de casado com uma megera.

O engraçado é justamente ver esses três contracenando suas ilusões e mentiras apenas para que se sintam bem. O filme gira em torno disso, em meio a pessimismo, fatalidades e claro, abusado do fato de serem meros patéticos se sentindo importantes a seu modo. Por isso, dificilmente será possível torcer ou criar qualquer simpatia com essas personagens. Fica-se com raiva de Chris por ser tão boboca a ponto de acabar com a própria carreira em nome de nada; fica-se com raiva de Kitty por ser uma cadela em todos os sentidos possíveis e fica-se com raiva de Johnny por ele ser o que é e ainda se vangloriar por isso.

A hora de colher tudo o que foi plantado é cruel. Cada um paga pelo seu erro, sofrem um castigo em todos os sentidos doloroso, e acaba sobrando ao pobre Chris o pior deles, num dos desfechos mais honestos e sufocantes do cinema. O clima noir que só Lang sabia fazer é o tom da obra, que passa um tom de solidão, infelicidade e tolice por parte de suas personagens. Por conta disso, Almas Perversas é uma obra impactante no que diz respeito a tratar desses temas com tanto realismo e alegorias que trazem pro cinema toda uma realidade que é preferível fechar os olhos.

Todo o paradoxo existente entre a vontade de sonhar, o sonho e a realização disso tudo é desenvolvido com um brilhantismo realmente surpreendente – e por vezes ousado. O diretor explora afundo até que ponto pode-se chegar para ter dentro de si, de forma muitas vezes obsessiva, o que quer. E com isso, transforma toda a felicidade em tragédia e a tragédia em efeito para tudo o que se deseja e se busca mesmo que a vida de outros não seja considerado. O amor vira ódio e o ódio a razão para seus atos, e o preço que todos pagam, vai ecoar em toda a eternidade.

Culpa, medo, raiva, todos os sentimentos ruins vindo dos seres mais deploráveis do mundo. Sim, eles tem sentimentos, mas são individualistas e realmente perversos. Então, quebrando as justificativas do filme de Renoir, não são produtos do meio em que vivem, mas sim, de sua mente fraca e obsessiva, que os faz buscar não importa como nem o que possa acontecer, tudo aquilo que mais querem. Quer abordagem mais humana do que essa?

 

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