Cantando na Chuva (Gene Kelly e Stanley Donen, 1952)


Singing in the Rain, EUA (1952)

DireçãoGene Kelly , Stanley Donen.
AtoresGene Kelly , Donald O’Connor , Debbie Reynolds , Jean Hagen , Millard Mitchell.
Duração118 minutos.
Nota: 10,0

Por Rafael Lopes

A letra da música “Singing in the Rain” até hoje inspira e causa sorrisos, com uma melodia doce, uma canção que nos enche de esperança e a maravilhosa interpretação de Gene Kelly, grande e saudoso ator, que brilhou na era de ouro do cinema. E o filme em questão, um verdadeiro anti depressivo, é um dos maiores exemplos de um cinema que evoluía na nossa frente, evolução essa sentida até hoje, e que com isso, eternizou o cinema como uma beirando a perfeição, onde o único sentido que não pode ser explorado é o olfato.

Sequências inesquecíveis embaladas com o melhor que o cinema da época poderia proporcionar, num custo de 2 milhões de dólares justificados na duração do filme repleta de cores, brilho, coreografias impressionantes e canções inesquecíveis.Cantando na Chuva é definitivamente um dos filmes mais completos que já vi. Tudo funciona na mais perfeita ordem, na mais perfeita harmonia.

Poucas vezes vi atores tão entrosados e mostrando estarem realmente empenhados em dar o melhor de si em números desafiadores que nem a febre do protagonista impediu de render um dos momentos mais memoráveis do cinema; poucas vezes vi a técnica do filme funcionando em perfeita sincronia, onde cores, luzes, tudo sem soar exagerado, tampouco, incomodar; poucas vezes vi um filme com aparência tão leve, criticar de maneira avassaladora um sistema que imperava nas décadas passadas do cinema.

Isso é Cantando na Chuva, que ainda por cima, é uma verdadeira aula de história do cinema, contando um conturbado momento, principalmente para os atores, que a partir de então teriam que começar a falar.

E o filme já começa fazendo piada, com a atriz ninfeta e seu novo rico marido ou a exótica atriz e seu rico marido que já dura longos dois meses. O público não reage com gritos e nem ovaciona como grande astro o cara que apenas toca as músicas que dão clima ao elenco, mas as estrelas intocáveis da Monumental Pictures Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen) são recebidas com gritos e palmas e todo o amor conquistado com seus filmes. Quando perguntado se o caminho que trilhou até o sucesso foi fácil, Don rebate com um “…sempre com dignidade.”, e ele realmente teve.

Num momento onde as humilhações que os artistas eram submetidos apenas trabalhar, a dignidade sempre foi maior que qualquer cena perigosa que um dublê encarava uma cena mortal apenas para ter o que comer no outro dia. E foi essa dignidade que levou Don até o topo, mas claro, sem nunca esquecer de onde veio, e isso o torna realmente uma estrela, diferente da mulher de fala irritante que seria seu par romântico em dezenas de filmes.

Só que as coisas começam a mudar para ele quando conhece Kathy, numa fuga realmente cinematográfica contra um real ataque de fãs histéricas. Caindo acidentalmente no carro dela, ele percebe que cinema não é apenas dois rostos bonitos contracenando, mas também inspiração e dedicação para dar o melhor de si em um trabalho. Isso meche com ele. E então, algo que motivaria o declínio do cinema que o consagrou: o cinema falado.

Antes de a crise se instalar de vez, o dono do estúdio decide financiar um filme falado e entrar na nova onda . De alguma forma isso me fez lembrar o 3D e o IMAX que são a tendência da vez, e bem como O Cantor de Jazz, primeiro filme falado, ditaram uma espécie de regra para fazer filme. O público ficando mais exigente com essas inovações leva os produtores a acompanhar essa evolução se quiserem manter seus pescoços e vidas. Mas é aí que os problemas ficam piores: uma atriz apenas bonita, mas que não sabe falar corretamente e sua voz é pavorosa; como fazer um filme falado quando a técnica ainda é novidade e como isso vai afetar a vida dos envolvidos.

Trabalho redobrado ao diretor que estressa mais e mais trabalho aos atores, que sentem dificuldades em falar diretamente ao microfone. Sem solução aparente e com o desastre das exibições teste do filme, Don, seu amigo Cosmo (Donald O’Connor) e Kathy, encontram na música a solução, e dublar a mulher que não fala como uma pessoa normal o jeito de fugir das implicações que ela traria. Don se envolve com Kathy e Cosmo, que logo no começo diz que o show deve continuar acima de tudo, entra de cabeça na idéia e tratam de converter o filme em um musical, inovar e salvar o estúdio e suas peles, tudo no jeito, nada pode dar errado.

Vem a célebre cena da chuva – que na verdade era leite misturado com água, para a chuva ter mais destaque na cena – e todos os problemas se encaminham para uma solução. E no momento final, fechar o filme do filme com um número que, acidamente, critica sem sutilezas e sem piedade, o regime da beleza, da sorte, dos contatos, o regime ditatorial que reina em Hollywood, onde não basta apenas ter talento. E isso é concluído ao final do filme, onde Lina é tida como palhaça diante de um público pelo fato de a sua voz ser horrível.

Tudo acaba bem, mas o que fica não é a emoção de um filme, mas o poder de sua retórica que criticou e fez piada de algo sério, e nos faz pensar justamente no que foi abordado.

Broadway Melody Um dos momentos mais sublimes do filme

O mais bacana é ver um roteiro tão incrível, que foi escrito a partir de músicas que já haviam aparecido em outros filmes da MGM – apenas duas músicas foram escritas para esse filme: “Moses” e “Fit as a Fiddle” – inclusive a mais famosa de todas, “Singing in the Rain”, mas e daí? Souberam dissertar de uma forma tão soberba um tema tão difícil de ser levado sem pieguices ou omissão. E o mais irônico foi o rico orçamento para um filme que iria rir de Hollywood. O esquema publicitário também ajudou e isso se reflete na fama que o filme ganhou no mundo. Todos conhecem nem que seja a famosa cena da dança na chuva.

E camuflado nessa aparente inocência o filme se desenrola trazendo não somente as críticas, mas também se preocupando em ser realmente uma diversão sadia que trouxesse alguma informação. E conseguiram. Ambos objetivos atingidos com classe e verdade. Há cenas lindas, de pura poesia – que entregam uma das cenas românticas mais belas do cinema, ao som da eterna “You Were Meant For Me” – ou da divertida Make ‘Em Laugh, interpretada por Donald O’ Connor com pitadas de Chaplin e muita alegria.

Os dois diretores, que se mostram artistas de primeira – digo isso por Gene Kelly, um dos diretores que se mostrou muito envolvido com o filme – conseguem fazer de cada frame de Cantando na Chuva ser inesquecível. E o mais bacana é que o filme continua impressionante e com a eficiente capacidade de encher nossos olhos que tanta riqueza de cores e doses elevadas de uma contagiante alegria exalada sem cansar. E é isso que torna esse filme tai único e sensacional.

Obra prima inconteste.

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