Dê uma chance aos zumbis


Por Daniela Gorski

O ano de 2012 está acabando e, recentemente, o que mais se vê nas redes sociais são comentários, teorias, conspirações e piadas sobre o fim do mundo (que segundo a teoria dos Maias será em 21 de dezembro deste ano). Esses comentários e piadas, na maioria das vezes, estão relacionados ao tão badalado “apocalipse zumbi”, que nada mais é do que um mundo destruído e povoado por mortos ambulantes. O assunto ficou  tão em evidência que acabou se banalizando e tirando a credibilidade dos filmes desse gênero tão rico, sendo taxado de “modinha”. Por isso estou aqui, em nome daqueles que são recriminados e que não podem se defender e nem mandar o seu recado ao mundo: os zumbis.
Para concluir a minha pós-graduação em comunicação audiovisual, usei como tema “o zumbi como símbolo do apocalipse no cinema”. A princípio parecia um tema bobo, ou sem fundamentos e perspectivas, mas ao começar a ler sobre o assunto e a assistir aos principais filmes do gênero, percebi que cada obra retratava a época em que foi lançada, tornando esses longas registros históricos. É claro que nem todos os filmes de mortos-vivos são críticos, pois muitos deles tem como fundamento apenas os sustos e as risadas, mas mesmo assim, não deixam de ser boas obras cinematográficas. É por isso que lhes apresento cinco motivos para tratar os zumbis com mais respeito:
1- Filmes de zumbi retratam os medos da sociedade
Não apenas os filmes de zumbi, mas todos os filmes de terror em geral. Ao contrário do que muitos pensam, o primeiro filme de zumbi não foi A Noite dos Mortos-Vivos, de 1968. A primeira obra que trazia o dito cujo em seu enredo era Zumbi Branco, de 1932, que apresentava um monstro totalmente diferente do que vemos hoje em The Walking Dead, por exemplo. Na verdade, uma monstra, pois o morto-vivo em questão era uma mulher. O filme era baseado no livro-reportagem A Ilha da Magia (1929), do jornalista William B. Seabrook, que passou um tempo nas ilhas do Caribe coletando histórias assustadoras sobre vuduísmo. Segundo as lendas, os escravos eram mortos pelos donos das terras e “trazidos de volta a vida” por meio de magia negra. Sem alma e hipnotizados, esses “mortos-vivos” eram obrigados a trabalhar para sempre nas plantações.
Zumbi Branco estreou nos Estados Unidos durante a Grande Depressão (crise econômica que resultou em enormes taxas de desemprego durante os anos 1930), conquistando o público, que logo fez a analogia dos trabalhadores autômatos sem vida com o aumento dos desempregados vagando pelas ruas.
Madeline, o primeiro zumbi do cinema
Usando um exemplo mais recente, em 2002 foi lançado o filme britânico Extermínio, que mostrava uma Londres completamente devastada e destruída. O motivo era o alastramento de um perigoso vírus que em contato com as pessoas, as transformava em seres raivosos e famintos por carne humana. A cidade foi evacuada e um grupo de sobreviventes passa o filme todo em busca de respostas sobre o vírus e de um local seguro para ficar.
Extermínio foi produzido após o atentado terrorista de 11 de setembro e durante a guerra do Iraque, acontecimentos que proporcionaram ao mundo visões de destruição, caos e morte.  Além disso, durante os anos 1990 a Inglaterra sofreu com inúmeros casos da doença da vaca louca, mal que levou várias pessoas a óbito. Assim, o medo de uma nova guerra e de doenças contagiosas estão presentes no enredo e na concepção visual de Extermínio.
Londres abandonada em Extermínio
2- Zumbis foram recriminados mas depois provaram seu valor
Voltando ao passado, dezenas de filmes com zumbis foram produzidos para se aproveitar do êxito de Zumbi Branco. Apesar do sucesso inicial dessas obras, a quantidade de produções com o monstro acabou se saturando. Como se não bastasse isso, os anos 1940 foram marcados pelas atrocidades da Segunda Guerra Mundial e pelos supostos aparecimentos de OVNI’S em Roswell. O medo de bombas e de invasões alienígenas passaram a tomar conta da população, e os produtores de cinema acabaram deixando o zumbi de lado para criar filmes sobre  mutações atômicas e seres de outro mundo. O terror se unia a ficção científica.
Posters de filmes de terror dos anos 1940 e 1950
O gênero terror mudou de foco durante esses anos, mas os filmes de zumbis não deixaram de ser produzidos. Como o monstro estava fora de moda, nenhum grande estúdio se interessava em investir nessas criaturas, por isso, a maioria dos filmes criados nessa época é de baixo orçamento e sem grande influência. Esses longas-metragens eram tão mal feitos que chegaram a ser marginalizados. Mas, após 38 anos do lançamento do primeiro filme de zumbi, é produzido aquele que seria um divisor de águas no subgênero, aquele que transformaria o morto-vivo na criatura que conhecemos hoje: o filme A Noite dos Mortos Vivos.
Lançado em 1968, o filme de George Romero apresentava uma situação em que os mortos voltavam à vida de maneira misteriosa e em grande número, deixando os vivos encurralados. Estava criado o tão comentado hoje, apocalipse zumbi. Foi também nesse filme que a ideia de morto-vivo canibal foi apresentada pela primeira vez ao público. O filme foi sucesso de público e crítica e modernizou o zumbi, tirando-o da tumba definitivamente. Grande Romero!

Pessoal indo trabalhar segunda-feira de manhã
3- Filmes de zumbis fazem críticas sociais
Além de inovador visualmente, A Noite dos Mortos-Vivos foi o primeiro filme de terror que continha um protagonista negro em seu enredo. Levando em conta que os Estados Unidos passavam por conflitos raciais nessa época, a escolha do ator foi uma grande quebra de tabu. O filme, além de abordar o racismo, apresentava críticas aos meios de comunicação da época e apontava um niilismo para a situação que desafia a compreensão do ser humano e das dinâmicas fundamentais do universo. Assim, o filme de Romero fez grande sucesso, proporcionando aos fãs uma continuação em 1978, o intitulado Despertar dos Mortos.
Nessa sequência, muito mais grotesca e sanguinária, um grupo de sobreviventes se aloja em um shopping para tentar escapar do zumbis. A crítica ao consumismo exagerado da sociedade está presente o filme todo. Além disso, Despertar dos Mortos está repleto de humor negro e sátira. A combinação do humor com o terror serviu para amenizar a violência e a crueldade presente no filme.

Hora da bóia, pessoal!

Com a situação de caos apocalíptico, a cidade vira uma terra sem lei e sem autoridades. Durante uma sequência do filme, os sobreviventes alojados no shopping se veem a mercê de outro perigo além dos mortos-vivos. Uma gangue de motociclistas invade o shopping arrebentado portas e destruindo lojas. As ameaças não eram mais apenas zumbis, mas também os vivos que agora não precisavam agir de acordo com a lei. O filme ilustra uma situação em que a falta de autoridades assola a necessidade de um comportamento civilizado, relevando o que há de pior no ser humano.

4- Zumbis são engraçados
Tá, tudo bem. Vocês podem me convencer que não gostam de filmes de zumbis por morrerem de medo deles. Essa é a intenção, afinal, são filmes de terror, não é? Sim! Mas dentro desse subgênero maravilhoso dos mortos-vivos podemos encontrar obras que visam apenas a diversão. São os chamados “Terrir”.
Desde a aparição do primeiro zumbi no cinema, os mortos-vivos vêm conquistando espaço nas produções do gênero terror. Mesmo assim, os monstros nunca conseguiram ganhar a credibilidade que mereciam, até que em 1983 foram colocados dançando ao lado de Michael Jackson no videoclipe de Thriller. O clipe serviu como nova forma de apelo popular e transformou o zumbi em um ícone do mainstream.

Saudades, Michael!

Depois de aparecerem na MTV, o zumbis passaram a estrelar filmes de comédia para adolescentes. Repletos de piadas, rock and roll e nudez, esses filmes de estética pós-punk levaram inúmeras pessoas ao cinema com o intuito de rir e levar alguns sustos. O irreverente A Volta dos Mortos-Vivos (1985) é a mais bem sucedida obra desse conceito, tendo rendido mais duas continuações.
Atualmente, o mais recente filme que mistura humor e zumbis é Zumbilândia, de 2009. O filme foi muito bem aclamado pelo público, recebeu diversos prêmios e rendeu US$ 76 milhões apenas nos cinemas norte-americanos. O longa também foi sucesso de crítica, provando que essa combinação de monstros e risos não ficou apenas nos anos 1980.

5- Eles estão em toda parte
Apesar dos filmes envolvendo nossos queridinhos terem caído de produção no início dos anos 1990, eles nunca deixaram de ser filmados. As obras do terror estavam cansando as pessoas e a maioria dos filmes era de baixo orçamento. Foi então que, quando tudo estava indo de mal a pior, surgiu um jogo de videogame que traria o zumbi de volta aos holofotes cinematográficos. Em1996, a companhia japonesa Capcom lança um jogo de videogame para o novo aparelho de jogosPlaystation. O jogo de terror e aventura, chamado de Resident Evil, era inspirado visualmente em filmes de Romero, trazendo em seu enredo os zumbis como ameaça a ser enfrentada. Após o grande sucesso comercial do jogo, uma adaptação do game para o cinema foi anunciada. Lançado em 2002, Resident Evil foi o primeiro filme de zumbi de grande orçamento em 70 anos da história do gênero e levou o morto-vivo ao mainstream hollywoodano.
Após essa renovada no gênero, os monstros passaram a “atuar” em outras plataformas midiáticas, como em gibis, comerciais, estampas de roupa, internet e atualmente na adaptação televisiva da história em quadrinho The Walking Dead, a qual faz muito sucesso pelo mundo todo e atualmente está em sua terceira temporada.
Pois é, meu amigo, se depois tanto tempo exposto a essas lindas criaturas você não foi contaminado pelo vírus zumbi, prepare-se porque eles ainda vão te conquistar!

Eles só querem ser seus amigos kkkk

Texto: Daniela Gorski
Estagiária de revisão: Rafaela Gorski

 

 

Confira a resenha de Frankenweenie.

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