O Demônio das Onze Horas (Jean-Luc Godard, 1965)


Pierrot Le Fou, França (1965)

DireçãoJean-Luc Godard.
AtoresAnna Karina, Jean-Paul Belmondo, Aicha Abadir, Pascal Aubier.
Duração110 min.
Nota: 10,00

Por Rafael Lopes

Nouvelle Vague (nova onda) , foi uma forma de expressão do cinema, onde imperou a transgressão. Quebrar os moldes do cinema e reinventar utilizando uma narrativa diferente e envolvente, mas sem deixar de lado suas influencias, como o noir do cinema americano. Aparecem rompendo com o jeitão clássico de fazer cinema, com uma montagem inesperada e sem uma linearidade na história.

Dentre os cineastas que deixaram seu nome cravado na história com suas obras de arte nouvelle vaguense, Jean-Luc Godard é um nome forte. E o seu Pierrot Le Fou (não entendo como esse título virou O Demônio das Onze Horas) é uma das obras mais aclamadas, junto com as artes audiovisuais de François Truffaut, Alan Resnais entre outros.

É um filme que possui um enredo, mas não possui um roteiro. Trata-se da história de Ferdinand (Jean-Paul Belmondo), um professor de espanhol cansado da vida fútil que levava. Junto com Marianne (a belíssima musa de Godard, Anna Karina), foge para o sul da França, cometendo delitos e redescobrindo a sua vida.

Mas como um filme possui enredo e não possui um roteiro? A forma como o filme é concebido é que torna a experiência de assisti-lo mais interessante, e porque não, mais intensa. Godard não exita em utilizar toda a influencia do cinema norte americano em construir as cenas que compõem as duas horas de duração. Primeiro Ferdinand está muito puto com a vida que leva. Está cansado de ver e fazer as mesmas coisas e então, foge.

De um professor, vira um bandido procurado pela justiça por ter cometido um assassinato, e tome fugas, lutas coreografadas e tiroteios.

Mas então, ele encontra conforto “na sua praia”, na literatura, nas artes – que sempre foram sua válvula de escape. Entra o romance e suas implicações, drama sobre escolhas e como enfrentar as dificuldades.

Logo ele fica cheio disso tudo, volta a ser bandido, e depois, volta a imaginar a vida novamente ao lado dela e somente dela.

É tudo uma dança, bela dança por sinal, sobre a vida. Pierrot Le Fou é um filme sobre a vida. Em muitas cenas, em muitos diálogos, Godard nos oferece pistas sobre as suas intenções, e o malicioso francês nos convence com suas artimanhas sutis, escondidas em cada diálogo, em cada cena. O apelo visual do filme, enaltecido pela linda fotografia, é outro destaque.

As cores mais fortes são o branco, azul e vermelho. As cores da bandeira da frança, mas também as cores da bandeira dos Estados Unidos, de onde boa parte das situações veio, do cinema americano. Mas que ganham um charme ganha um bom gosto a mais, por ter sido realizado na bela França. Há ainda, uma cena bastante peculiar, onde Ferdinand, já começando a demonstrar desprezo pela sua vida, caminha numa festa e as cores vão mudando de acordo com as pessoas com quem vai cruzando.

E o apelo sexual, só que bastante discretamente, incrementando as aventuras e desventuras do casal central. Há a beleza do relacionamento, há as dificuldades de se manter um saudável relacionamento, há o desejo, há a sinceridade, há o amor.

Marianne falando para Ferdinand em dado momento do filme: “Você fala comigo com palavras, eu falo com você com sentimento”.

E a peculiar história de amor dos dois é contada com um humor bastante delicioso, que se mistura ao ácido humor crítico do filme. A forma como se tratam, quando não estão em tensão, é de uma inocência, uma pureza, uma graça.

Mas logo vem a tempestade, nem que seja ela criada com fogos de artifício, pra disfarçar a infelicidade, e por mais que briguem, eles se amam, e isso fica mais do que claro ao fim do filme, quando alcançam a eternidade.

O bacana deste filme está numa coisa muito difícil de se encontrar: criatividade. Tudo é criativo, nada é mais do mesmo. Godard é criativo no romance, no drama, na comédia, na ação. Tudo no filme é embasado na criatividade, a começar pelos dotes artísticos do protagonista. Ele escreve, ele interpreta obras de arte, ele até deixa a empregada ir ao cinema assistirJohnny Guitar, pra ver se o número de idiotas no mundo pára de crescer.

E com a sua bela par acontece o mesmo. Adora fotografia, e queria que a vida fosse como num livro, porque assim a vida seria mais lógica, mais organizada. Ela canta e dança, ela celebra a vida, mesmo que a sua “linha da vida” seja curta e que para Ferdinand só o que importa seja a sua “linha da coxa” no final das contas.

A direção de Godard não economiza em mostrar a criatividade. E sua edição que no início incomoda por ser “estranha”, no fim nos convence de que é como enxergamos a vida. Ou damos atenção para as coisas que nos incomodam, ou para as coisas boas, mas nunca enxergamos os detalhes. E no filme é assim. Se pararmos para enxergar os detalhes, e não apenas acompanhar os personagens, descobrimos muitas coisas escondidas. Leve isso para a sua própria vida e pronto, entenderá o que digo.

Só que Godard é picareta, e faz o filme ser uma ponte entre as situações de seus personagens e os espectadores.

E com isso, ele consegue o seguinte feito: sabemos que é um filme, mas na verdade, queremos acreditar que é ilusão; e não o contrário, que por sinal é o cinema em sua essência (usar a ilusão para narrar à vida).

Nada soa exagerado, e tudo ganha um tom clássico no meio da modernidade, e o balé vai seguindo, até entrar nas críticas ferrenhas do diretor à pobreza intelectual da alta sociedade, enxergando ali um circo de idiotas falando de seus carros importados, velozes e seus xampus e laquês que fazem milagres. A guerra do Vietnã também ganha sua crítica no filme, numa bela passagem onde além de falar sobre a guerra, fala sobre o imperialismo que segregou a África e assolou vários países pobres com guerras.

” O sobrinho do tio Sam contra a sobrinha do tio HO”.

E já perto do fim, somos questionados sobre tudo o que aconteceu durante o filme. Eu cheguei a conclusão de que tudo é o destino, e que temos que trilhar nosso próprio destino. Não apenas “… seguir em linha reta ”, mas sempre desviar e escrever a nossa própria história. Se por acaso o carro cair no mar, saia dele vá a pé, mas não pare.

No fim de tudo, é uma poética fábula sobre a vida.

C’est La Vie.

Anúncios