Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois (François Truffaut, 1964)


 

Jules et Jim, França (1964)

DireçãoFrançois Truffaut.
AtoresJeanne Moreau , Oskar Werner , Henri Serre , Vanna Urbino , Boris Bassiak.
Duração106 minutos.
Nota: 9,0

Por Rafael Lopes

Nos anos 60, no auge da Nouvelle Vague, diretores experimentavam e inovavam e mesclavam a arte do cinema com a poesia da literatura, fazendo nascer obras atemporais e carregadas de sentimento, consagradas e cultuadas até hoje. Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois aparece nesse contexto, e além de ser um dos grandes exemplos dessa vanguarda do cinema, que acima de tudo prezou pela criatividade influenciada pelos modelos clássicos, deixou uma história sincera e bela sobre a amizade valiosa e o trágico amor.

O foco do filme é a amizade, e o que se quer pretende aqui é mostrar que a amizade é maior que qualquer coisa. Truffaut imprime no filme uma inocência e uma pureza aliado a temas fortes e delicados, onde põe a prova personagens que se apresentam fortes e são atacados em suas fraquezas. Mas acima de tudo, mostrar que nada abala uma amizade que já nasceu forte e no meio de tudo isso, provar que o amor é trágico.

Jules é alemão, tímido, frágil. Jim é francês, boêmio, intelectual, bem relacionado. Os dois se encontram na agitada Paris dos anos 10. Noitadas, mulheres, festas, e de repente são grandes amigos. O início do filme brinca com a velocidade e intensidade que era Paris naquela Belle Époque, e a rapidez com a qual Jules e Jim tornam-se amigos e essa amizade vai perdurar sólida e sofrida, porem sincera e respeitosa.

Na vida dos dois, surge Catherine, a mulher que vai motivar todas as provações pelas quais os dois passarão.

Entre os três se inicia uma fase de descobertas cruciais, sendo a mais evidente delas o fato de que Catherine quem irá comandar, como na sublime cena da corrida. Ela trapaceia, vence e os dois sucumbem a seus caprichos, e assim irão continuar.

Os três num casarão experimentam a felicidade e nasce ali uma admiração por parte de cada um deles por ela. Ela então vira objeto de desejo de Jules, que no meio de toda sua ingenuidade se considera o homem certo para ela. Um encontro com Jim muda tudo. O relógio não colabora e o diretor joga uma questão: Jim perdeu Catherine ou ela que se entregou para o homem errado por um erro de cálculo?

A guerra os separa, Jules casa com Catherine e Jim luta contra a nação de seu melhor amigo. O amor que existe pela amizade dos dois é maior que qualquer coisa. Isso se justifica com a preocupação que se imprime durante o tempo em que estão no front. Mas como está Jules inocente e Catherine dúbia? Sim, ela tem características que chegam a ser assustadoras. Uma coisa é certeza, do meio pra frente, tudo o que Catherine fizer, será surpreendente.

O pós guerra é o melhor do filme. Antes ele esteve ali, experimentando e brincando com o cinema. Uma edição frenética, as personagens sendo postas e desenvolvidas com muita rapidez (mas tudo muito bem esclarecido) e a narração ali, como mostra da criatividade maravilhosa dos franceses no auge da Nouvelle Vague, e Truffaut brincando com poesia e literatura e a arte do cinema. O início é sublime, de longe parece um drama ou um romance.

E o diretor nos pega desprevenidos quando o filme engrena de vez. A relação dos três começa a sofrer pancadas severas e o amor começa a se confundir com todos os sentimentos possíveis, que vão da felicidade à desconfiança de 0 a 100. Jim vai ao encontro do amigo Jules em outro país.

Lá o vê casado com Catherine e com uma filha, é tudo tão bonito aparentemente, mas há coisas guardadas e que precisam ser expelidas.

Jim ouve Jules contar o que realmente se passa. Traição. Onde está agora a admiração que sentia por ela. Jim percebe que seu amigo sai incólume da situação, mas algo o intriga: o que há por trás daquela mulher. Envolve, curte o momento e depois pula fora experimentando coisas novas, mas nunca deixando de ser esposa. O público se divide. Há o que odeiam ela e os que entendem, mas uma coisa é certa, admira-se e muito a amizade entre eles.

Jim vê que nessa confusão de sentimentos que vivem Catherine e Jules, ele pode tê-la em suas mãos, e com Jules confiando no amigo para pode ser mais marido para ela do que ele foi, toda a história pode ganhar outro curso ali. Jules e Jim, duas mentes diferentes, e que Catherine não seria capaz de distinguir. Ela pensa que Jim pode ser tão fraco quanto ele, e só de perceber nas cartas que recebe dele, nota que ela não é tão mulher assim, e isso a afeta.

O amor torna-se então ódio, mas não capaz de destruir a amizade. Entre tentativas de assassinato e o desfecho surpreendente da história, Truffaut deixa indagações e inquietações que assolam a mente humana, de sobre como encarar a vida em meio a dificuldades e problemas pessoais e caminhos tênues tão perigosos que envolvem afetividade. Mas deixando claro que o amor nunca atinge a perfeição como a amizade, justificando o final trágico que deu a suas personagens.

A França como pano de fundo, a guerra como fator de separação, uma mulher para os dois se conhecerem, mascaras que todos vestem, falsidades, ironias e Nouvelle Vague. A mistura que torna essa obra tão peculiar e adorável está justamente nesses detalhes. O diretor sabiamente leva seu filme tratando de assuntos polêmicos e difíceis de maneira inocente e pura.

É sentida as mensagens e observações que o diretor deixa ao longo do filme e as situações a qual eles são colocados nada mais são que momentos onde ele expressa suas idéias e amor e amizade.

Os diálogos e as citações ditas em monólogos impressionantes, sendo um deles com um texto de Baudelaire buscam uma verdade em comum: a mulher. O diretor busca a perfeição da mulher, mesmo inserindo o comentário machista de Baudelaire, o que boa parte do filme e em boa parte do tempo Jules e Jim estão procurando é a mulher ideal, o modelo ideal, a mulher perfeita. Catherine se adéqua a isso, mas com o desenrolar da história, a coisa muda, e é aí que está a funesta relação do amor com a tragédia e no fim das contas, o amor não é tão perfeito quanto se pensa.

Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois é uma obra de arte completa. Junta todos os elementos artísticos utilizados de maneira genial e inspiradora por um diretor no seu auge.

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