Beleza Americana (Sam Mendes, 1999)


Título Original: American Beauty.

Gênero: Drama.
Direção: Sam Mendes.
Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Tora Birch, Mena Suvari, Wes Bentley.
Duração: 121 min.
Nota: 10

Por Marcela Oliveira

“Look Closer”

Quem é atraído pelo delicado título ou pela capa, poderá se surpreender com a história deste filme. Longa de estréia do diretor inglês Sam Mendes (Estrada para Perdição, Foi Apenas um Sonho), Beleza Americana, de 1999, inteligente desde o título, pinta um quadro cínico e sarcástico e é um espetáculo de ambigüidade e metáforas através de uma crítica ácida ao modelo de vida ocidental que vale a pena ser conferido, sem citar a trilha sonora maravilhosa de Thomas Newman, além de conter músicas de artistas como Elliott Smith, Eels e The Who.

O filme se inicia com a câmera sobrevoando um subúrbio de pessoas “bem de vida” tipicamente americano, com o seguinte trecho da narrativa post mortem (primeiramente usada no filme Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder), onde nos é apresentado o protagonista: “Meu nome é Lester Burnham. Essa é minha vizinhança. Essa é minha rua. Essa é minha vida. Eu tenho 42 anos e, em menos de um ano, estarei morto. É claro, eu ainda não sei disso. E, de certa forma, eu já estou morto.” Este quote poderia resumir bem o enredo do filme: o objetivo e o subjetivo.

A história se passa mais precisamente aos olhos deste pai de família que vive o legítimo “Sonho Americano”. Uma família idílica e corriqueira. Têm vizinhos adoráveis, uma bela casa, o carro do ano, empregos bons, uma filha adolescente que está tendo uma ótima educação e sorrisos nos rostos. Tinha tudo para ser feliz como um comercial de margarina. Como uma rosa, poderia nos conquistar por sua beleza. Mas o filme nos instiga a olhar mais de perto, afinal, nada é tão belo assim, e as rosas, como qualquer outra flor, apodrecem.

Lester Burnham (magistralmente interpretado por Kevin Spacey), nosso protagonista-narrador, é um letárgico homem de meia idade que, ao deparar-se com a idéia de que odeia seu emprego, tem uma relação totalmente difícil e no máximo tolerável com sua esposa, a superficial e histriônica Carolyn (interpretada Annette Bening, uma mulher infiel e quase caricata, que se preocupa apenas com a carreira e status social), e sua filha Jane (uma adolescente que detesta os pais e tem problemas de auto-estima e segurança, interpretada por Tora Birch) e que seu único momento de prazer na vida é quando se masturba no banho, decide mudar radicalmente de atitude e abrir mão de sua rotina burguesa que traía seus sonhos de juventude e que era dedicada às aparências, ao tenho e o vir a ter, ao materialismo, ao consumismo.

Deixando de ser apenas voyeur da própria vida, sofre uma ruptura repentina com o modelo de família americana. Larga o emprego, se abre com a esposa e filha, coloca tudo pra fora; começa a praticar exercícios físicos, ouvir rock e a fumar maconha.

E então, há uma das cenas mais marcantes do filme, e talvez também do cinema contemporâneo: enquanto assistia uma das apresentações de líder de torcida de Jane, encontra-se subitamente atraído pela amiga da filha, a sedutora Angela Hayes (Mena Suvari), uma legitima “american girl” que aparentemente é “tudo” que qualquer adolescente quer ser, a partir do estereótipo de beleza. A jovem parece dançar sensualmente para ele, apenas para ele. Essa paixão platônica foi o estopim para suas mais radicais mudanças de atitude, e segundo ele “É bom quando descobrimos que podemos surpreender a nós mesmos, faz pensar no que mais podemos fazer e havíamos esquecido”. Angela para ele se torna uma espécie de Lolita, e representa a sua juventude esquecida, a fantasia, a beleza da vida, a liberdade, o rompimento das correntes da obrigação se ser um empregado modelo, um marido modelo, um pai modelo.

Com o novo sentimento arrebatador despertado por Angela, há também a incidência de pétalas de rosas: as vermelhas, as mais belas. Pétalas que também aparecem em várias outras cenas. Seja num vaso, fazendo parte do segundo plano, como decoração dos cenários, seja de forma inesperada, banhando tais cenas com cor forte de desejo, que como uma atração repentina por uma menina jovem quando se já é casado e tão acostumado com a monotonia que esqueceu como é viver, manifesta vida, em meio aos tons pastel e apagados do filme, que possivelmente simbolizam o tédio, a rotina e passividade do protagonista.

Há várias interpretações a essas pétalas. Além do desejo repentino e da representação da beleza, as rosas, que muito são cultivadas nos EUA (curiosamente chamadas american beauties) sem espinho nem cheiro, também podem representar a superficialidade, e o vazio e falta de sentido da vida contemporânea. Até porque, a real beleza americana neste caso seria apenas a visual, estética e denotativa, mas sem cheiro. Quase que artificial.

Neste meio tempo, Jane começa a se relacionar com o vizinho Ricky Fitts (Wes Bentley), considerado um louco, um mau elemento, com quem mantém uma relação baseada em identificação, pois ambos não aquiesciam as exigências da sociedade, ou melhor, não eram compreendidos. Com o contemplador Ricky, Jane aprende a apreciar os momentos mais simples da vida, e que a beleza pode ser encontrada em qualquer lugar: tudo depende dos olhos de quem vê. Neste momento, Ricky lhe mostra um vídeo de uma sacola plástica “dançando” com o vento. De fato, é uma das cenas mais belas, reflexivas e sensíveis do filme, que é magicamente fotografado por Conrad Hall (Estrada para Perdição, Butch Cassidy).

Porém, o sensível Ricky não era mostrado a todos. Em casa, oprimido por seu autoritário pai com tendências nazistas, que abominava a idéia de ter um filho gay, Ricky representava um papel, o de um garoto disciplinado e obediente.

Então há a reviravolta do roteiro, magistralmente escrito por Alan Ball (True Blood): Ricky, após mais uma vez ser espancado pelo pai que desconfia da sexualidade do filho, conversa com Jane e decidem fugir; Carolyn, frustrada com seu amante e sua carreira, decide matar o marido; Angela, depois de ter sido desprezada por um colega, busca seduzir Lester, e revela-se inexperiente; enquanto isso, o hipócrita pai de Ricky revela-se gay quando beija Lester, mas vendo que não é retribuído, tenta “recuperar” sua masculinidade assassinando com um tiro Lester, enquanto este observa um retrato de família num momento alegre (e a frente, um vaso repleto das tais rosas american beauties, possivelmente representando que avida de aparências realmente destruiu a verdadeira felicidade da família). O sangue, tão vivo como as pétalas das rosas, mancha a cena, desta vez com horror e morte.

De um lado, uma história sobre a hipocrisia: seja de uma família que vive como um fantoche, seja de um pai autoritário e extremamente preconceituoso que se revela gay, seja por uma menina modelo e teoricamente experiente que na verdade é virgem. Por outro lado, um filme essencialmente crítico ao estilo de vida das terras do Tio Sam, ou melhor, à sociedade contemporânea em geral, que tenta projetar suas frustrações numa felicidade passageira e materialista, que distorce o ser quando prega o ter. Mas, acima de tudo, uma história sobre a beleza. Uma beleza ironicamente tratada, a beleza hipócrita e somente estética, como no título, que nos desafia com a frase “…olhe bem de perto” (Look Closer, no original) estampada da própria capa do filme.  Ou então uma visão existencialista da beleza, a valorização das coisas mais belas e simples da vida, como uma sacola plástica voando. Uma sacola, que costumam usar para colocar lixo, como símbolo de beleza, irônico, não? Mas segundo Ricky, “É difícil ficar zangado quando há tanta beleza no mundo”.

Um dos 50 primeiros na classificação do IMDB, e em 2000, dentre muitas participações em festivais, indicado a oito Oscars (e vencendo cinco; Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia), Beleza Americana, merece, de fato um olhar mais de perto, pois é muito mais que uma obra prima do cinema contemporâneo: é também sobre o mal-estar, os fracassos, a exposição dos medos e das farsas da civilização, sobre a recuperação dos sentidos e valores. Uma reflexão sobre o nosso existir breve e confuso sucumbido pela indústria. É uma mensagem universal. Afinal, Lester somos todos nós, os condenados a uma vida dedicada ao consumo, prontos para nos soltar das amarras sociais e dos tons pastel do dia-a-dia que só nos torna cada vez mais como uma rosa sem cheiro.

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